Autor: Renato Mendes

Engenheiro Eletricista, com ênfase em Sistemas de Energia, formado pela UNESP-Bauru em 1999, e Mestre em Engenharia Elétrica pela USP de São Carlos em 2003. Profissional com atuação no setor elétrico brasileiro desde 2001, tendo assumido posições técnicas e de gestão em grandes empresas do setor, nas áreas de estudos energéticos, inteligência de mercado, e gestão de risco na comercialização de energia.

No final de fevereiro, o mundo viu, estarrecido, o início da invasão russa à Ucrânia. Não bastasse os impactos da pandemia, que ainda se fazem presentes, o conflito deverá resultar em novos desafios para a economia mundial. Sem contar, obviamente, com a perda de diversas vidas humanas que as ações bélicas terão como infeliz resultado.

Atendo-nos ao aspecto econômico, os principais impactos que devemos ter no país podem ser resumidos dentro dos seguintes aspectos:

 

Energia:

A Rússia é o maior produtor global de gás natural, e o terceiro maior produtor de petróleo, detendo 11% da oferta global desta commodity. Após o início da guerra, já tivemos forte elevação no preço desses energéticos no mercado mundial.

No Brasil, espera-se efeitos na mesma direção. Contudo, para o setor de energia elétrica, mesmo que haja elevação nos custos das usinas térmicas movidas a gás natural e derivados de petróleo, a forte recuperação nos níveis dos principais reservatórios deve contribuir para compensar tais efeitos.

Ademais, importante ressaltar que é esperada uma recuperação da safra de cana de açúcar, o que deverá contribuir para minimizar, também, a pressão altista nos preços da gasolina. Lembrando que, por lei, o percentual obrigatório de etanol na composição da gasolina comum é de 27%, e de 25% da gasolina premium.

O maior impacto é esperado para o diesel, o qual não tem adição de etanol. Com isso, podemos esperar elevação dos preços dos fretes ao longo do território nacional.

 

Alimentos:

Rússia e Ucrânia possuem uma participação de 28% da produção mundial de trigo e 20% da oferta de milho, sendo o primeiro responsável, também, por 13% do mercado mundial de fertilizantes.

No caso do Brasil, sua balança comercial com a Rússia contempla poucos produtos, sendo a importação de fertilizantes a mais representativa. Importante destacar que cerca de 60% desta importação é feita, historicamente, no segundo semestre, o que pode contribuir para, se não mitigar, ao menos dar um maior tempo para que as repercussões e impactos do conflito possam ser mais bem compreendidas e assimiladas.

Além disso, os países em guerra respondem por 80% das exportações globais de óleo de girassol. O temor pela queda oferta deve elevar a demanda por outros óleos vegetais, o que favorece a cadeia a soja do Brasil.

 

Câmbio e juros:

O dólar começou 2022 em queda no Brasil. Contudo, já se nota uma pressão altista no valor da moeda norte-americana. Caso o conflito se prolongue, podemos ter a baixa da divisa anulada, e até mesmo uma apreciação desta em relação ao Real.

Dólar subindo, juntamente com elevação de custos de frete e pressão na demanda de diversas commodities, devem contribuir para manutenção ou até mesmo aumento da inflação. Neste caso, o Banco Central pode ser obrigado a elevar a taxa SELIC, como medida de contenção inflacionária.

Dessa forma, vemos que a guerra entre Rússia e Ucrânia deve trazer impactos na economia brasileira, os quais serão mais ou menos intensos a depender do prolongamento ou não da crise. No setor de energia elétrica, a elevação dos custos de combustível nas usinas termelétricas é um fator de pressão altista no PLD. Contudo, uma pressão inflacionária pode impactar negativamente o crescimento do país e, com isso, arrefecer o consumo de energia, gerando uma pressão de sentido inverso nos preços. Adicionalmente, é bom lembrar que tivemos, até o momento, forte recuperação nos níveis de armazenamento, o que tem contribuído para manutenção do PLD em seu valor mínimo regulatório, a despeito da estiagem persistente no Sul do Brasil.

 

autor Renato Mendes