Boletim Mensal de Energia Abril 2020

Eletricidade | Witzler Energia | Mercado Livre de Energia

Apresentação

Historicamente, março é o último mês do chamado Período Chuvoso, ou Período Úmido, do Sistema Interligado Nacional (SIN). Inclusive, a famosa música Águas de Março, do maestro Tom Jobim, já nos diz, em um de seus versos mais célebres: “são as águas de março fechando o verão”. Após a forte recuperação das vazões ocorrida ao longo do mês de fevereiro, tivemos a continuidade de cenários favoráveis de Energia Natural Afluente (ENA) durante o mês de março. Contudo, no decorrer deste mês, verificamos uma elevação gradativa do PLD ao longo das semanas operativas. Podemos atribuir tal comportamento dos preços à frustração na expectativa de chuvas e, consequentemente, à queda nas previsões de vazões a cada revisão semanal do Programa Mensal de Operação (PMO) realizado pelo Operador Nacional do Sistema (ONS).

De qualquer forma, mesmo após um início de período chuvoso preocupante no final de 2019 e janeiro de 2020, com PLD atingindo valores ao norte dos R$ 300/MWh, assustando o mercado e fazendo com que o setor elétrico revivesse o medo de uma forte escalada de preços levando-os ao teto regulatório de R$ 559,75/MWh, tivemos um mês de fevereiro bastante chuvoso, como já mencionado anteriormente. Foram verificados recordes de chuva nas principais bacias do SIN, como Paranaíba e Grande, além de chuvas volumosas nos submercados Norte e Nordeste. Inclusive, neste último, ainda temos valores de vazões acima de sua média histórica, o que não era verificado há anos no sistema.

Pois bem, aliado à situação hidrológica favorável (a menos na região Sul do país, sobre a qual falaremos no decorrer deste material), tivemos um evento “cisne negro” afetando praticamente o mundo todo: a pandemia da COVID-19. Na operação do sistema, seu impacto mais imediato é a forte queda no consumo de energia, decorrente das medidas restritivas que vêm sendo tomadas pelo Governo para combater a evolução da doença. Com tal redução, espera-se uma maior recuperação dos níveis de armazenamento dos principais reservatórios do SIN, fato que já têm sido verificado nos últimos dias.

A região Sul do Brasil vem enfrentando uma forte e prolongada estiagem desde praticamente setembro do ano passado. Com isso, seu nível de armazenamento bate seguidos recordes de mínimos históricos, pelo menos dos últimos dez anos. A situação por lá só não é pior em função do aumento recente que tivemos na capacidade de intercâmbio entre Sudeste e Sul, favorecendo o recebimento de energia gerada no restante do país.

Ao longo deste Boletim, estas e outras informações de interesse do mercado de energia serão fornecidas a vocês, clientes da Witzler Energia, como forma de estreitarmos nossa parceria de negócios através do conhecimento, troca de informações e transparência, valores os quais carregamos em nosso DNA. Desfrutem deste material, e não se esqueçam de mandar-nos críticas e sugestões para que possamos melhorá-lo cada vez mais!

Situação Hidrológica do Sistema Interligado Nacional

1. Energia Natural Afluente (ENA)
Figura 1 – Trajetórias de ENA para cada subsistema (Fonte: ONS)

Nos gráficos acima, temos as trajetórias de ENA nos quatro submercados e a totalização do SIN. Podemos ver a comparação das trajetórias de 2020 em relação aos anos anteriores e, de acordo com a envoltória de cada gráfico, em relação aos últimos 10 anos. Enquanto as ENAs de Sudeste, Nordeste e Norte fizeram máximas em 2020 em parte dos meses de fevereiro e março, no Sul, podemos verificar que tais valores são praticamente os mínimos dos últimos 10 anos.

Importante ressaltar que, desde o final do mês de março, temos uma recessão nas vazões do SIN, o que é esperado, já que estamos na transição do período chuvoso para o seco. Contudo, como Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte estão com valores de ENA acima ou próximos à média de longo termo do mês de abril, ainda temos uma evolução nos seus níveis de armazenamento nos últimos dias, como será visto a seguir.

2. Níveis de Armazenamento
Figura 2 – Trajetórias dos níveis de armazenamento por subsistema (Fonte: ONS)

A Figura 2 mostra as trajetórias de armazenamento em cada um dos subsistemas, com o nível verificado no dia 06/4/2020 em destaque em cada gráfico. Além da questão hidrológica, a menos na região Sul, convém destacar que a forte queda no consumo de energia, decorrente das medidas de restrição de circulação de pessoas e aglomerações, imposta em função da COVID-19, acaba contribuindo também para a manutenção da recuperação dos reservatórios. Apenas temos queda nos níveis de armazenamento da região Sul, a qual ainda sofre com uma severa estiagem que há meses persiste.

3. Carga
Figura 3 – Trajetória das médias móveis de 30 dias da carga (Fonte: ONS / Exponencial)

As medidas restritivas adotadas pelo Governo Federal para combate à pandemia da COVID-19 no país têm resultado em forte queda no consumo de energia verificado no país. Pelos gráficos acima, podemos observar que tal fato vem ocorrendo em todas as regiões do país. O destaque para o SE/CO se deve pelo fato de que as medidas se iniciaram nos estados de SP e RJ.

Um gráfico recente divulgado pelo ONS, e que ilustra bem os impactos mais imediatos da crise atual na carga, é mostrado a seguir. Em termos gerais, podemos verificar que houve quedas acima dos 10 GWm na carga, ao compararmos as primeiras semanas do mês de março com a última, quando já tínhamos as medidas restritivas em curso:

Figura 4 – Efeito da COVID-19 no consumo de energia (Fonte: ONS)

Com tal choque contundente na demanda por energia, houve forte impacto nas condições de oferta e demanda no sistema o que, em última análise, impacta fortemente os PLDs, o que será mostrado no item seguinte.

4. Preço de Liquidação de Diferenças (PLD)

A curva abaixo apresenta o comportamento do PLD até a segunda semana operativa de abril.

Figura 5 – PLDs verificados no perído em análise

Após uma elevação gradual do PLD no mês de março, o mês de abril se iniciou com o PLD no seu valor mínimo regulatório, de R$ 39,68/MWh. Conforme já debatido ao longo deste Boletim, mesmo com valores de ENA abaixo da MLT no mês, a queda material na carga verificada nas últimas semanas não só afeta os preços verificados em abril. Para o mês de maio, teremos a Primeira Revisão Quadrimestral da Carga, a qual é elaborada em conjunto entre ONS, CCEE (Câmara de Comercialização de Energia) e EPE (Empresa de Pesquisa Energética).

Com a expectativa de um PIB zero, nesta revisão verificamos uma queda significativa na expectativa de carga ao longo dos próximos cinco anos (horizonte de simulação do modelo NEWAVE, o qual é utilizado para o cálculo do PLD). Isso mexe de modo mais estrutural na expectativa do balanço oferta e demanda do setor e, consequentemente, com as condições de preços do mercado.

Tabela 1 – Estimativas de crescimento do PIB (Fonte: ONS/CCEE/EPE)
Figura 6 – Carga de Energia no SIN, em MWm (Fonte: ONS/CCEE/EPE)

Frente à essa redução tão significativa de carga, nossas projeções indicam que o PLD deve ser mantido em seu valor mínimo regulatório, ao menos, até o final de maio/2020. Tais projeções serão abordadas no próximo item, relacionado ao Mercado.

5. Mercado

A Figura abaixo apresenta o preço médio da energia incentivada cotada durante as quatro semanas do mês de fevereiro/20, bem como o PLD verificado nesse período. Observa-se um cenário futuro favorável no Mercado Livre de Energia.

Figura 7 – Evolução dos preços de energia incentivada no mercado (Fonte: Witzler)

Em termos de expectativas do PLD, em função da queda na carga verificada nos últimos dias, e a expectativa que esta permaneça ao longo de abril até maio, esperamos PLDs no nível mínimo regulatório nestes dois meses, ao menos.

A partir daí, dependendo do cenário hidrológico, pode haver alguma alteração deste cenário. Porém, a menos de condições extremas de ENA, o que não é esperado ainda, vemos que a maior probabilidade é a de manutenção do PLD em valores abaixo dos R$ 100/MWh ao longo dos próximos meses.

Baseamo-nos nas simulações a seguir para tecer tal afirmação. Fizemos um cenário de ENAs bem abaixo da média de abril até o final do ano, e comparamos os resultados de preços rodando duas simulações: uma com a carga do PMO de Abril/2020, considerando os impactos da COVID-19 apenas nos meses de abril e maio (como é feito pelo ONS), e outra já levando em conta os valores de Primeira Revisão Quadrimestral de junho em diante:

Tabela 2 – Cenários de ENA para as simulações de PLD (Fonte Exponencial Energia)
Figura 8 – Resultados das simulações de PLDs (Fonte: Exponencial Energia)

No caso sem a revisão quadrimestral, com o cenário de ENA estudado, poderíamos ter preços bem acima dos R$ 200/MWh a partir de julho/2020. Já ao se considerar a carga revista, e que será incluída na modelagem oficial do cálculo do PMO a partir do mês que vem, vemos que há uma queda material nos preços projetados. Ademais, caso tenhamos ENAs acima das consideradas na simulação, percebemos que há possibilidade real de preços abaixo dos obtidos.

Uma coisa que não foi simulada, por ser de difícil mensuração ainda, é a possibilidade de ser verificada carga até mesmo mais baixa que a projetada na Primeira Revisão Quadrimestral. A depender da profundidade da crise, o impacto no consumo de energia pode ser mais duradouro, levando a uma recuperação mais lenta do que o projetado por ONS/CCEE/EPE. Não só nós nem essas entidades, mas o mundo todo ainda não tem a dimensão exata da crise e seus desdobramentos nas economias nacionais.

6. Bandeiras Tarifárias

Após o acionamento de bandeira tarifária verde durante o mês de março de 2020, novamente a teremos para abril. Como já vimos, o PLD está no seu valor mínimo regulatório, o que, combinado ao fator de geração hidrelétrica do MRE de 85%, previsto pela CCEE, enseja a manutenção desta bandeira para o mês corrente.

Meteorologia

Na primeira semana de março, outro episódio de ZCAS atuou novamente sobre Sudeste e Centro-Oeste e sobre o estado da Bahia. Tal fenômeno foi o de mais longa duração desse período chuvoso, contribuindo para a ocorrência de bastante chuva nas bacias dos rios Grande, Paranaíba, São Francisco, Tocantins e Parnaíba.A partir da segunda quinzena do mês de fevereiro, houve a configuração de uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, contribuindo para ocorrência de boas chuvas nas principais bacias dessas regiões, como Paranaíba, Grande, Tietê, além de chuvas também nas bacias dos rios São Francisco, Tocantins e Madeira.

Ao final deste episódio, houve ocorrência de chuvas em forma de pancadas nas bacias dos rios Tocantins e Parnaíba, além do trecho incremental a UHE Sobradinho. No restante das bacias hidrográficas, em especial na região Sul do país, tivemos ausência de chuvas.

De modo geral, os eventos de ZCAS ocorridos neste período chuvoso contribuíram bastante para a recuperação dos níveis de armazenamento das principais bacias do Sudeste/Centro-Oeste e, especialmente, Nordeste e Norte. O Sul, conforme já mencionamos anteriormente, sofreu, e ainda sofre, com uma forte estiagem.

Abaixo, podemos verificar as chuvas acumuladas nos meses de fevereiro e março:

Figura 9 – Precipitação total em fevereiro/2020 (Fonte: CPTEC)
Figura 10 – Precipitação total em março/2020 (Fonte: CPTEC)
1. Expectativas Meteorológicas

Quanto mais longe queremos ter previsões acerca do comportamento das condições climatológicas, maior é o desafio. Pela experiência, a assertividade das previsões se reduz quanto mais tentamos avançar no tempo. Para o período de até 5 dias, temos uma assertividade razoável. Contudo, para períodos de 15 dias, 30 dias, é mais difícil de termos previsões confiáveis.

De qualquer forma, centros de estudos climáticos ao redor do mundo fornecem insumos para previsões meteorológicas de prazo mais estendido. Devemos utilizá-las com cuidado, avaliando tendências possíveis, porém sem descuidarmos dos riscos envolvidos.

Dentre as previsões mais consultadas pelo setor elétrico, temos as do GFS (Global Forecast System, modelo de previsão de tempo produzido pelo National Center for Environmental Prediction – NCEP, dos EUA). A rodada mais recente do modelo pode ser verificada na figura a seguir:

Figura 11 – Previsões meteorológicas resultantes do modelo GFS (Fonte: WXMaps)

Pelo mapa, podemos ver que, o período de 07 a 15/4, temos as maiores possibilidades de chuvas ao longo das regiões Norte e Nordeste do país, bem como parte do estado de MG, atingindo partes de algumas bacias do Sudeste, como a do rio Paranaíba. Contudo, as regiões Sul e Sudeste apresentam condições de menos chuvas neste período.

Já a partir do dia 15, condições de maiores volumes de chuvas voltam para a região Sul, o que deve favorecer o aumento das vazões nas principais bacias da região (Uruguai, Jacuí e Iguaçu).

Importante destacar que este padrão com menos chuvas nas bacias do Sudeste e do Centro-Oeste é esperado de agora em diante, como parte da transição da estação chuvosa para o período seco.

Conclusões

Mesmo que o principal impacto no PLD reduzido que temos verificado seja decorrente da forte queda na carga, é importante seguir com o acompanhamento das condições meteorológicas, e seus impactos no atendimento energético e preços do SIN.

Importante destacar que, por mais intensa que possa ser a crise atual, ela deverá criar boas oportunidades para os consumidores que já estejam ou que queiram migrar para o mercado livre.

Além dos preços que devem se manter reduzidos ao longo dos próximos meses (a menos que ocorra uma situação muito “seca” em termos de hidrologia), convém lembrar que as soluções que têm sido discutidas para fazer frente ao iminente problema de caixa para as distribuidoras deverão resultar em elevados reajustes tarifários em um futuro próximo. Dessa forma, o mercado livre continuará a ser parte, ou mesmo a solução para eventuais dificuldades que o mercado consumidor possa a ter, trazendo economia relevante, bem como previsibilidade de custos de energia.



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