Boletim Mensal de Energia de Outubro de 2020

TRANSMISSÃO_DE_ENERGIA

Apresentação

Transição para o período de chuvas

Através da observação dos valores médios históricos[1] de Energia Natural Afluente dos quatro subsistemas que compõe o Sistema Interligado Nacional (SIN), podemos observar um padrão bastante semelhante entre Sudeste, Nordeste e Norte, com um período chuvoso iniciando-se em outubro, e com duração até março ou abril do ano subsequente.

1. Média das ENAs do período de 1931 a 2018

Figura 1 – Médias de Longo Termos da Energia Natural Afluente por Subsistema (Fonte: ONS)

No subsistema Sul, temos uma sazonalidade distinta, com um período de maiores ENAs entre maio e novembro. Em princípio, nota-se uma complementariedade em relação aos demais. Contudo, na realidade, não há uma sazonalidade tão definida para esta região. Ao observarmos gráficos, como os da Figura 2, fica mais claro observar que, praticamente, “cada ano é um ano”.

De qualquer forma, com a sazonalidade histórica das ENAs dos demais subsistemas em mente, o comportamento esperado para o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) seria uma tendência de queda a partir de outubro, seguindo em valores relativamente baixos até abril, onde começaria a se elevar, já que há uma diminuição das vazões.

Contudo, já faz um tempo que essa “calmaria” não se faz presente nos preços de energia. Ao observarmos o comportamento recente do PLD nos últimos 10 anos, temos:

Figura 2 – Comportamento do PLD nos últimos anos (Fontes: CCEE / BBCE, nos valores de out/20 em diante)
Elevação do PLD

O comportamento “padrão” do PLD foi observado, claramente, no período de setembro/2010 ao final do período chuvoso de 2011, e no período de 2015/2016. Com maior variabilidade, tivemos um comportamento similar, também, em 2017/2018. No período de 2014/2015, a mudança do PLD máximo, caindo praticamente pela metade, distorce nossa análise.

Mas temos algumas situações notáveis no histórico, com elevação dos PLDs ao longo do período chuvoso. O que houve?

Nos últimos anos, tivemos vários episódios com chuvas aquém do esperado. Nestas situações, como, por exemplo, nos períodos chuvosos de 2011/2012, 2012/2013, 2013/2014, 2018/2019, 2019/2020, ao invés de uma tendência clara de queda, houve elevação do PLD, inclusive atingindo montantes bastante representativos. Ou seja: à espera pela chuva, que não veio a contento, leva o agente de mercado a uma situação complicada, caso tenha que comprar energia no mercado de curto prazo.

No ano em curso, ainda estamos no início do período de chuvas. Na verdade, ele mal começou. Ou começou mal, já que, de setembro para outubro, houve uma forte escalada do PLD, saindo de um valor médio de R$ 100,84/MWh em setembro para R$ 280/MWh, agora, na terceira semana operativa do mês de outubro (de 10 a 16 de outubro).

Por que tivemos tal elevação?

Na figura abaixo, podemos observar o comportamento do PLD em comparação com a ENA, ambos referentes ao submercado Sudeste/Centro-Oeste:

Figura 3 – Comportamento histórico do PLD x ENAs do Sudeste/Centro-Oeste (Fonte: CCEE / ONS)

Desde 2013, o SIN tem vivido situações de um período chuvoso com ENAs abaixo da média. Com isso, há elevação material do PLD nestas situações. Certamente, há outros fatores que devem ser levados em conta para uma análise mais apurada, como, por exemplo, comportamento da carga. No ano em curso, podemos ver, na Figura 7, que houve impacto severo na carga no período de março a julho, em função das medidas de isolamento social para combate à pandemia. Assim, além da recuperação das ENAs a partir de fevereiro, a queda na carga contribuiu para uma forte redução nos preços de energia.

Recuperação do mercado vs. ENA

Porém, já se nota forte recuperação na carga, sobretudo de setembro último para cá. Aliado a isso, temos ENAs em valores muito abaixo da média. Após um período acreditando que “ano que vem é piso”, já notamos uma elevação significativa na expectativa de preços de energia no mercado, sobretudo para produtos com entrega entre 2020 e 2021, como podemos ver nas Figura 8 e Figura 9.

Então, agora, “ano que vem é teto”? Depende. Mas do quê? Da sequência do período chuvoso daqui para o ano que vem. Além, é claro, das demais condições do sistema, como carga (dado que estamos observando não só uma recuperação notável, como recordes de carga, iremos ter novas projeções de 2021 até 2025? Serão maiores que as atuais, como se comportará a economia daqui para frente? Como será o cenário pós-Covid?), e demais condições operativas, como níveis de armazenamento, limites de transmissão etc. Claro que, como as vazões respondem por praticamente 50% da volatilidade do PLD, o mercado todo fica atento às previsões meteorológicas, e as ocorrências de precipitações nas principais bacias do SIN. Não é só uma questão de “vai chover muito”, mas sim “vai chover muito onde interessa?”. É uma resposta complicada de se dar, dada a complexidade das condições climáticas e sua evolução ao longo do tempo.

Além disso, a capacidade das chuvas “virarem” ENA é maior dependendo das condições de umidade do solo. Na figura a seguir, podemos verificar que o início do período chuvoso atual ocorre em uma condição de solo bastante seco. Com isso, temos uma certa “inércia” no sistema, onde as primeiras chuvas deverão saturar o solo até índices de umidade mais próximos a 70%/ 80%, para depois termos uma resposta em ENA mais significativa.

Figura 4 – Armazenamento de água no solo (Fonte: INMET – Instituto Nacional de Meteorologia)

Assim, podemos concluir que o comportamento dos preços em um período de transição pode sofrer variações significativas. Ademais, ele depende da evolução de variáveis que estão completamente fora do controle do mercado. O que é possível fazer é acompanhar as condições operativas do sistema, estudar e simular as tendências de preços em cenários possíveis, e monitorar constantemente as condições meteorológicas.

Situação Hidrológica do Sistema Interligado Nacional

Energia Natural Afluente (ENA)[2]
Figura 5 – Trajetórias de ENA para cada subsistema (Fonte: ONS)

Desde o final do mês de setembro, até o momento (09/10), a presença de um sistema de alta pressão fez com que tivéssemos uma condição mais seca no SIN como um todo. No Sul, alguns episódios de chuvas trouxeram uma pequena elevação nas ENAs, porém, de modo bem discreto. Nos demais subsistemas, seguimos em trajetória de queda das vazões.

Historicamente, o mês de outubro apresenta uma transição do período seco para o chuvoso. Contudo, até o momento, espera-se retorno da umidade ao longo do SIN apenas ao longo dos próximos dias, mais para a segunda quinzena de outubro.

2. Basicamente, a ENA corresponde à energia obtida quando a vazão natural afluente de um rio é turbinada nas usinas situadas a jusante, ou seja, rio-abaixo, a partir de um ponto de observação.

Figura 6 – Valores de ENA verificados nos meses de janeiro a outubro (RV2 do PMO neste último) (Fonte: ONS)
Níveis de Armazenamento

A Figura 3 mostra as trajetórias de armazenamento em cada um dos subsistemas. Os níveis em destaque são os do dia 08/10/2020.

Com um tempo mais seco, e uma temperatura mais elevada, temos grande pressão do consumo de energia na utilização dos recursos energéticos do SIN. Com isso, seguimos em trajetória de queda em todos os subsistemas.

Figura 7 – Trajetórias dos níveis de armazenamento por subsistema (Fonte: ONS)
Carga
Figura 8 – Trajetória das médias móveis de 30 dias da carga (Fonte: ONS / Exponencial)

A retomada das atividades após as flexibilizações das medidas de isolamento social, aliada à onda de calor verificada ao longo do país nos últimos dias, sobretudo no Sudeste e Centro-Oeste, notamos uma elevação material da carga nos últimos dias, o que afeta a média móvel, indicando uma elevação forte em relação ao mês e ano anteriores. Na Tabela 1, pode-se observar que a carga em outubro já é maior que a de setembro, e ao mesmo mês do ano passado.

Tabela 1 – Carga de energia – média de 30 dias (Fonte: ONS – Elaboração: Exponencial Energia)
Mercado

Nas últimas semanas, a condição mais seca que se coloca sobre o Sistema Interligado Nacional (SIN), bem como a perspectiva de um retorno lento da condição de chuvas, trouxe grande volatilidade nos preços de energia. As maiores oscilações se concentraram nos produtos com entrega em 2020 e 2021. Porém, já se nota impactos nos preços para produtos com entrega em 2022 em diante.

Figura 9 – Curva de Preços de para Energia Convencional (Fonte: Grupo Witzler Energia)
Figura 10 – Curva de Preços de para Energia Incentivada (Fonte: Grupo Witzler Energia)

Conforme comentamos no Boletim Mensal anterior, os próximos meses são cruciais para a definição dos patamares de preços. De fato, é o que temos visto no mercado. Após meses “acreditando” um uma “condição dada” de preços para o final deste ano e para o próximo, a ausência de chuvas no decorrer de setembro e início de outubro, e expectativa de vazões bem abaixo da média para o mês em curso, e a forte retomada do consumo de energia trouxeram ao mercado um cenário bem diferente, com alta material nos preços. Uma alteração deste cenário só ocorrerá caso haja mudança significativa na perspectiva do início e qualidade do período chuvoso.

Figura 11 – PLDs médios verificados em 2020 – OUTUBRO: média dos preços verificados até a semana de 10 a 16/10 (Fonte: CCEE)
Bandeiras Tarifárias

Como mais uma medida emergencial, frente ao cenário de pandemia da Covid-19, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) decidiu manter a bandeira verde acionada até 31/12/2020. O anúncio desta medida foi feito na Reunião Pública da Diretoria da ANEEL do último dia 26 de maio.

Meteorologia

No mês de setembro, tivemos atuação de frentes frias na região Sul. Porém, tais ocorrências ficaram restritas ao estado do Rio Grande do Sul e no sul de Santa Catarina. Com isso, as tivemos ocorrência de precipitações apenas nas bacias dos rios Jacuí, Uruguai e, de forma isolada apenas, no rio Iguaçu. Nos demais subsistemas, não tivemos chuvas significativas em boa parte do mês.

Na quarta semana do mês, houve a passagem de uma frente fria pelo litoral do Sudeste, o que contribuiu para a ocorrência de chuvas fracas e isoladas nas bacias dos rios Paranapanema, Tietê, Grande, Paranaíba, e trechos da incremental de Itaipu. Com isso, houve uma elevação discreta na ENA da região.

Figura 12 – Precipitação total em junho/2020 (Fonte: CPTEC)
Expectativas meteorológicas

Na última semana de setembro, tivemos forte elevação nas temperaturas nas regiões Sudeste e Sul, em função da atuação de um sistema de alta pressão, o que, também, resulta na ausência de chuvas significativas em quase todo o SIN. Nos últimos 5 dias, tivemos uma condição bastante seca no sistema, a qual, aliada a uma onda de calor com temperatura atingindo recordes históricos em várias cidades das regiões Sul e Sudeste/Centro-Oeste do Brasil, resultaram em forte utilização dos reservatórios, já que houve elevação material do consumo de energia.

Figura 13 – Precipitação acumulada em 5 dias (Fonte: CPTEC)

A expectativa de chuvas, de acordo com a última simulação do modelo GFS[3], mostra um cenário com retorno paulatino das condições de umidade no SIN ao longo dos próximos dias. Contudo, não são esperados volumes acumulados significativos até o dia 17/10. NO período posterior, as previsões mostram uma possibilidade de acumulados mais intensos na bacia do rio São Francisco.

Porém, é importante lembrar que o armazenamento de água no solo se encontra bastante reduzido, e que apenas uma constância nas chuvas mais volumosas deverá impactar as vazões de modo mais sensível.

3. Global Forecast System, modelo de previsão de tempo produzido pelo National Center for Environmental Prediction – NCEP, dos EUA

Figura 14 – Previsões meteorológicas resultantes do modelo GFS (Fonte: WXMaps)

Conclusões

Mesmo com as previsões meteorológicas indicarem retorno de uma condição mais úmida ao longo das próximas semanas, em função do enfraquecimento de um sistema de alta pressão que atua no Brasil central, não são esperados acumulados de chuvas significativos nas principais bacias do SIN.

Além disso, o consumo de energia vem batendo recordes nos últimos dias, atingindo montantes que não se viam desde o período antes da pandemia.

Conforme comentamos nas conclusões do último Boletim Mensal, a entrada do período chuvoso no Sudeste/Centro-Oeste se dá, historicamente, ao longo dos meses de outubro e novembro. Com um início de outubro com ENAs muito abaixo da média histórica, já tivemos uma evolução material nos preços de energia no mercado, consequência de um aumento muito forte no PLD nas três primeiras semanas operativas do mês de outubro, sendo que, nesta última, o valor médio semanal de Sudeste, Sul e Norte chegou a R$ 281,43/MWh.

Como consequência, o mercado confirmou a tendência de alta nos produtos para entrega em 2020 e 2021, e já impactam alguns preços de mais longo prazo. Tal tendência só será revertida caso haja uma alteração nas previsões meteorológicas e previsões de vazões, a ponto de indicarem reversão na condição mais seca sob a qual ainda estamos neste início de outubro.

Escute agora o segundo episódio do Witzler Cast



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