Boletim Mensal de Energia Junho 2020

Boletim Mensal de Energia Junho 2020

Apresentação

Revisão Extraordinária da Carga

Desde meados de março, temos percebido forte impacto no consumo de energia no Brasil, e no mundo, em decorrência das medidas de isolamento social tomadas ao redor do globo para combate à pandemia da Covid-19.

Em apresentação realizada durante a 66ª Assembleia Geral Extraordinária da CCEE, Rui Altieri, Presidente do Conselho de Administração da Câmara, trouxe o gráfico a seguir, o qual mensura o referido impacto:

Comparação do consumo de energia elétrica nos primeiros meses do ano 2020
Figura 1 – Comparação do consumo de energia elétrica nos primeiros meses do ano (Fonte: CCEE)

Nos primeiros meses do ano, a queda no consumo de energia teve uma maior influência de fatores como temperatura. Como tivemos um período chuvoso mais favorável que o de 2019, as temperaturas mais amenas registradas no primeiro trimestre do ano tiveram um impacto mais significativo sobre a queda no consumo de energia das regiões Sudeste e Sul do Brasil.

Porém, como já mencionado, a partir da segunda quinzena de março as medidas de isolamento social adotadas começaram a surtir efeito sensível no consumo. Em abril e maio, notamos queda de 12% em ambos os meses, em relação ao mesmo período do ano anterior.

Um montante dessa ordem implica em um impacto material na economia brasileira, já que boa parte do setor industrial, e parcela significativa dos setores de comércio e serviços foram obrigados a reduzir suas atividades de modo bastante severo.

ONS, CCEE e EPE fazem projeções de carga para utilização nos modelos energéticos, os quais são base para a precificação de energia (PLD), e outros estudos de grande importância, como de necessidade de nova oferta para os leilões de energia, nos quais as distribuidoras compram energia para atendimento às suas necessidades.

Temos um plano anual e duas revisões quadrimestrais, sendo a primeira feita em abril, para utilização no PMO de maio, e a segunda em agosto, para utilização no PMO de setembro.

Neste ano, a revisão quadrimestral foi entregue bem no início da pandemia. Não havia, com ainda não há, uma ideia clara da profundidade da crise. Tanto que o PIB base utilizado para a revisão da carga foi de 0% em 2020.

Ao longo do tempo, previsões indicavam um cenário bem mais desafiador para a economia brasileira. Como as previsões de carga exercem grande impacto no setor elétrico, foi necessária uma revisão extraordinária, a qual utilizou uma premissa de PIB mais próxima dos cenários que são previstos: -5% (na verdade, há previsões mais pessimistas, mas esta foi a utilizada na revisão extraordinária).

O impacto nas projeções de carga de 2020 a 2024, tanto no plano como nas revisões, pode ser visto a seguir:

Projeções de carga elétrica em cada um dos cenários
Projeções de carga elétrica em cada um dos cenários
Figura 2 – Projeções de carga em cada um dos cenários (Fonte: ONS/EPE/CCEE)

Assim, pode-se verificar que o efeito combinado das revisões Quadrimestral e Extraordinária gera uma projeção de carga para o SIN mais baixa em cerca de 5 GW médios (queda de 7% em 2020 e 6,5% na média dos anos de 2021 a 2024).

Como já mencionado, os impactos para o setor são importantes, tanto em termos de operação do sistema, quanto em relação à uma perspectiva menor da necessidade de expansão do sistema, e, como efeito mais imediato, queda do Preço de Liquidação de Diferenças (PLD).

Em relação a este último, fizemos uma simulação de como seriam os PLDs de junho caso a revisão extraordinária já estivesse válida para o mês em curso. Os resultados são mostrados abaixo:

PLD médio oficial x simulação com revisão extraordinária
Figura 3 – PLD médio oficial x simulação com revisão extraordinária – junho/2020

Dessa forma, podemos concluir que teremos uma nova “forçante de baixa” nos preços a partir de julho. Todavia, dependendo dos cenários hidrológicos, bem como restrições operativas, os níveis de PLD podem ficar similares aos atuais.

Com a queda da expectativa de carga, faz sentido, também, não termos leilões para contratação de nova oferta no ano corrente. É mais prudente avaliar a situação no próximo ano, após a crise e a consequente mensuração mais apurada de seus efeitos no setor.

Situação Hidrológica do Sistema Interligado Nacional

Energia Natural Afluente (ENA)¹
Trajetórias de ENA para cada subsistema
Figura 4 – Trajetórias de ENA para cada subsistema (Fonte: ONS)

No gráfico acima, podemos verificar as trajetórias das ENAs, as quais seguem em queda principalmente no Sudeste, Nordeste e Norte, em função da época do ano, período seco.

Uma observação interessante acerca do Sudeste é que, após boa recuperação nas vazões em fevereiro e março, seus níveis de ENA estão perto da trajetória observada em 2018 – ano onde tivemos os menores valores de ENA registrados nos últimos 10 anos entre julho e agosto. Importante monitorar esta evolução.

No Sul, houve uma elevação razoável das vazões na passagem de duas frentes frias, uma no final de maio, e outra mais recentemente. Contudo, os valores ainda se encontram muito reduzidos.

No gráfico a seguir, temos o histórico das ENAs ao longo de 2020, com os valores de junho referentes à revisão 1 do PMO de junho, evidenciando os valores muito abaixo da média no Sul ao longo do período.

Valores de ENA verificados nos meses de janeiro a junho de 2020; Boletim Mensal; Energia; Junho
Figura 5 – Valores de ENA verificados nos meses de janeiro a junho (RV1 do PMO) (Fonte: ONS)
  1. Basicamente, a ENA corresponde à energia obtida quando a vazão natural afluente de um rio é turbinada nas usinas situadas a jusante, ou seja, rio-abaixo, a partir de um ponto de observação
Níveis de Armazenamento

A Figura 6 mostra as trajetórias de armazenamento em cada um dos subsistemas, com o nível verificado no dia 08/6/2020 em destaque em cada gráfico. Sudeste, Nordeste e Norte seguem em trajetória de transição, após boa elevação no período chuvoso, sobretudo do Nordeste.

Já o Sul, apesar de ter níveis em ascensão nos primeiros dias de junho, segue nos menores valores observados no histórico recente.

Trajetórias dos níveis de armazenamento por subsistema; Hidrologia; Níveis de Armazenamento, Chuva; Boletim Mensal; Energia; Junho
Figura 6 – Trajetórias dos níveis de armazenamento por subsistema (Fonte: ONS)
Carga
Trajetória das médias móveis de 30 dias da carga; Energia elétrica; Junho 2020
Figura 7 – Trajetória das médias móveis de 30 dias da carga (Fonte: ONS / Exponencial)

O impacto da crise sanitária no consumo de energia tem sido material ao longo do ano, como pode ser visto nos gráficos acima. Em relação ao mês de maio, a menos do Nordeste, nota-se uma tendência de elevação na carga do SIN em junho.

Ao longo do mês, poderemos acompanhar o impacto na carga da flexibilização das medidas de isolamento social, e volta à operação de indústrias e comércio, como shoppings centers.

Boletim Mensal; Energia; Junho; Carga de Energia
Tabela 1 – Carga de energia – média de 30 dias (Fonte: ONS – Elaboração: Exponencial Energia)
Mercado

Ao longo do ano, as condições hidrológicas variaram de maneira sensível, conforme vimos nas seções anteriores deste Boletim. Com isso, tivemos forte volatilidade no PLD. No gráfico a seguir, temos o comportamento do preço nos quatro submercados. Destaque para o Sul, cujo valor foi mais elevado nos meses de fevereiro e março. De abril em diante, com a forte queda da carga, e aumento de intercâmbio de energia com o Sudeste, o PLD do Sul voltou a se igualar ao do Sudeste.

Boletim Mensal; Energia; Junho; PLD Junho
Figura 8 – PLDs médios verificados em 2020 – JUNHO: média dos preços verificados até a semana de 06 a 12 (Fonte: CCEE)

Após a queda sensível dos preços da Energia Incentivada 50% no mês de Abril, principalmente dos anos de 2020 e 2021, em consequência dos impactos na carga causados pela epidemia do COVID-19, no mês de Maio, diante do saída do PLD do piso, o preço da energia registrou pequena elevação, com maior impacto no ano vigente.

Boletim Mensal; Energia; Junho; prelo para longo prazo de energia incentivada
Figura 9 – Preço de para Longo Prazo de Energia Incentivada 50% e PLD durante o mês de Maio/2020 (Fonte: Exponencial Energia e CCEE)

Entretanto, não foi notado, ainda, um impacto mais sensível nos preços de longo prazo, ou seja, produtos com início de entrega de 2022 em diante. Tais preços sofrem menos influência das condições conjunturais.

Em princípio, acreditamos que um eventual impacto mais sensível nos preços para entrega em 2022 possa ser sentido somente mais adiante no ano, mais próximo ao período chuvoso de 2020/2021.

Bandeira Tarifárias

Como mais uma medida emergencial, frente ao cenário de pandemia da Covid-19, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) decidiu manter a bandeira verde acionada até 31/12/2020. O anúncio desta medida foi feito na Reunião Pública da Diretoria da ANEEL do último dia 26 de maio.

Boletim Mensal; Energia; Junho; bandeira tarifária

Meteriologia

Na primeira quinzena de maio, houve o avanço de duas frentes frias pelas regiões Sul e Sudeste, ocasionando chuvas, porém, de fraca intensidade, na bacia do rio Jacuí e em pontos isolados dos rios Uruguai e Iguaçu. Porém, no final da terceira e início da quarta semana do referido mês, tivemos uma nova frente fria, a qual trouxe totais elevados de precipitação nas bacias dos rios Jacuí, Uruguai, Iguaçu e Paranapanema.

Mesmo assim, apesar de um aumento sensível de ENAs, o Sul segue uma situação hidrológica muito abaixo de sua média histórica.

Boletim Mensal; Energia; Junho
Figura 10 – Precipitação total em abril/2020 (Fonte: CPTEC)
Expectativas meteriológiacas

Quanto mais longe queremos ter previsões acerca do comportamento das condições climatológicas, maior é o desafio. Pela experiência, a assertividade das previsões se reduz quanto mais tentamos avançar no tempo. Para o período de até 5 dias, temos uma assertividade razoável. Contudo, para períodos de 15 dias, 30 dias, é mais difícil de termos previsões confiáveis.

De qualquer forma, centros de estudos climáticos ao redor do mundo fornecem insumos para previsões meteorológicas de prazo mais estendido. Devemos utilizá-las com cuidado, avaliando tendências possíveis, porém sem descuidarmos dos riscos envolvidos.

Dentre as previsões mais consultadas pelo setor elétrico, temos as do GFS (Global Forecast System, modelo de previsão de tempo produzido pelo National Center for Environmental Prediction – NCEP, dos EUA). A rodada mais recente do modelo pode ser verificada na figura a seguir:

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Figura 11 – Previsões meteorológicas resultantes do modelo GFS (Fonte: WXMaps)

Sem dúvida, em comparação ao mês passado, junho se mostra com uma condição mais favorável para chuvas no Sul do país. Já temos visto nova elevação das vazões neste subsistema, conforme foi verificado, também, na passagem da frente fria no final do mês de maio. De qualquer forma, no início deste mês, as previsões indicavam boas possibilidades para as precipitações na região. Mas, temos uma oscilação importante nas previsões meteorológicas, o que tem gerado volatilidade nos preços dos produtos com entrega em 2020.

De qualquer modo, as previsões mais recentes do modelo GFS da Figura 11 ainda mostram um cenário com boas precipitações, principalmente para o período de 17 a 25/6.

A revisão extraordinária de carga deverá trazer uma “forçante de baixa” nos preços a partir do mês que vem. Contudo, o que temos observado é uma elevação no PLD, em função do cenário hidrológico, que segue abaixo da média no Sudeste e muito ruim no Sul. Há perspectivas para a ocorrência de chuvas neste subsistema, mas notamos uma oscilação nas previsões, o que gera volatilidade no mercado para produtos com entrega ao longo de 2020.

Conclusões

A carga em junho tem dado sinais de reação, mesmo muito abaixo dos valores do planejamento anual. O anúncio e a efetivação de medidas de relaxamento do isolamento social têm condições de exercer uma pressão de alta no consumo de energia, com a retomada da atividade empresarial. Mas, é importante monitorar tal situação, já que, caso haja uma escalada de casos da Covid-19, pode haver uma revisão e eventual retrocesso nestas medidas.

Mesmo com volatilidade nos preços de 2020, não notamos impactos materiais nos preços de produtos de longo prazo. Com eventual elevação nas tarifas de energia, em função da necessidade de pagamento dos empréstimos no âmbito da Conta-Covid pelas distribuidoras, a atratividade da migração para o mercado livre segue muito interessante. Inclusive, em um momento de crise, oportunidades de redução de custos não devem ser desperdiçadas.

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Por Witzler | Energia

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